O sistema financeiro nacional vive um momento de introspecção e crise de confiança. O que antes era um caso de sucesso de recuperação bancária transformou-se, no maior colapso financeiro do Brasil. 

Com a decretação da liquidação extrajudicial do Will Bank pelo Banco Central (BC) nesta quarta-feira, 21 de janeiro de 2026, fecha-se o ciclo de uma estrutura que, segundo as investigações, sustentava-se em uma arquitetura de balanços inflados e captação de recursos insustentável. 

O encerramento das atividades do braço digital do grupo é o desdobramento final de uma crise que começou a implodir publicamente no final do ano passado.

Origem

A história do Banco Master está intrinsecamente ligada à figura do empresário e banqueiro Daniel Vorcaro. Em 2018, o antigo Banco Máxima encontrava-se em uma situação delicada, acumulando prejuízos e sob vigilância constante do Banco Central devido à sua exposição ao crédito imobiliário. 

A entrada de Vorcaro mudou o DNA da instituição. Rebatizado como Banco Master, a entidade abandonou o perfil conservador para adotar uma postura de crescimento exponencial. 

Em poucos anos, o banco saltou de uma posição irrelevante para se tornar um dos maiores emissores de CDBs do país, atraindo investidores com taxas de rentabilidade que frequentemente superavam em muito as de seus pares de médio porte.

“A mágica contábil”

A estratégia do Master baseava-se em um ciclo agressivo: captar bilhões de reais de pequenos investidores através de plataformas digitais e reinvestir esses valores em ativos de alto risco e baixa liquidez. 

De acordo com as investigações da Polícia Federal,  chegou-se à conclusão de que o banco utilizava precatórios e participações em empresas em dificuldades como lastro patrimonial, registrando esses ativos por valores muito superiores aos de mercado. 

Essa “mágica contábil” permitia que a instituição apresentasse lucros robustos e um índice de Basileia aparentemente saudável, enquanto, na realidade, o rombo operacional crescia silenciosamente sob a superfície dos relatórios auditados.

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Incorporação do Will Bank e o início do fim

Em fevereiro de 2024, o grupo tentou sua cartada final de consolidação ao adquirir o Will Bank. Com mais de 6 milhões de clientes e forte presença no Nordeste, o Will Bank era a peça que faltava para transformar o Master em um banco de varejo completo. 

No entanto, o que deveria ser uma sinergia de crescimento tornou-se um dreno de recursos. Quando o Banco Central decretou a liquidação do Banco Master em novembro de 2025 — após a tentativa de fuga e subsequente prisão de Daniel Vorcaro —, o Will Bank foi colocado sob Regime de Administração Especial Temporária (RAET). 

A esperança era que a fintech pudesse ser vendida para sanear parte das dívidas, mas a contaminação dos ativos e a interdependência financeira com a matriz tornaram a operação inviável.

O destino do Will Bank foi selado nesta semana após a instituição perder a capacidade de honrar seus compromissos com as bandeiras de cartão de crédito. Sem liquidez e sem compradores dispostos a assumir o passivo oculto deixado pela gestão anterior, o Banco Central optou pela liquidação extrajudicial para interromper o consumo de patrimônio e proteger o que resta dos ativos. 

O encerramento das operações deixa milhões de correntistas em um estado de incerteza, embora os depósitos à vista e investimentos estejam protegidos pelas regras do sistema financeiro nacional.

Fundo Garantidor de Créditos

O colapso do grupo Master-Will projeta uma sombra sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Com um montante estimado de ressarcimento que ultrapassa os R$ 48 bilhões, esta é, de longe, a maior intervenção da história do fundo. 

O volume de recursos necessários para cobrir os milhares de investidores de CDBs, LCIs e LCAs testa os limites da reserva de liquidez do FGC e levanta debates no Congresso e no Ministério da Fazenda sobre a necessidade de novos aportes das instituições financeiras para manter a rede de proteção do sistema.

O que tirar de lições para o futuro

A queda do império Master deixa lições amargas sobre a regulação no setor financeiro e, sobretudo, sobre o papel ético da contabilidade. O episódio evidencia uma falha sistêmica onde a contabilidade criativa teve seu uso não para refletir a saúde da empresa, mas para camuflar a insolvência através de avaliações subjetivas de ativos ilíquidos. 

A manipulação de provisões e o reconhecimento antecipado de receitas inexistentes transformaram os balanços em peças de ficção que enganaram auditores e reguladores por anos.

Para o futuro, o mercado exige uma revisão rigorosa das normas de auditoria e uma vigilância maior sobre o “ajuste a valor de mercado” de ativos complexos. 

A contabilidade deve retomar seu papel de sentinela da verdade econômica, pois, como demonstrado pelo Master e pelo Will Bank, números distorcidos podem sustentar gigantes temporários, mas a gravidade da realidade financeira eventualmente cobra seu preço, deixando para trás um rastro de prejuízos bilionários e a erosão da confiança pública.

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