Jornal Folha de S.Paulo publica artigo do presidente do CFC, Joaquim Bezerra Filho, que aborda, sob perspectiva técnica e institucional, os recentes episódios envolvendo instituições financeiras e companhias abertas, e destaca a importância da contabilidade, da auditoria independente e dos mecanismos de governança para a preservação da confiança nos mercados. No texto, o presidente da autarquia defende o rigor na aplicação das normas, a atuação responsável dos agentes envolvidos e o fortalecimento das instituições como elementos essenciais para a estabilidade econômica e a credibilidade do sistema financeiro brasileiro.
Confira a íntegra do texto abaixo:
Opinião
Contabilidade, confiança pública e o dever institucional de enfrentar os alertas do mercado
- Episódios recentes reacenderam um debate que precisa ser tratado com responsabilidade técnica
- Grande parte dos riscos que afetam sistema financeiro e mercado de capitais tem origem em questões contábeis
Joaquim Bezerra Filho
Contador, consultor de negócios e presidente do Conselho Federal de Contabilidade
Os episódios recentes envolvendo instituições financeiras e companhias abertas reacenderam um debate que precisa ser tratado com responsabilidade técnica, imparcialidade, equilíbrio institucional e maturidade pública: a preservação da confiança nos mercados por meio da qualidade da informação contábil, da auditoria independente e do adequado funcionamento dos mecanismos de governança, regulação e fiscalização.
Muito além de fatos isolados ou casos específicos (cabendo mencionar que muitos ainda estão em fase inicial de investigação), esses episódios funcionam como alertas estruturais. Eles evidenciam que a estabilidade dos mercados, a segurança dos investidores e a credibilidade das instituições dependem da correta aplicação das normas contábeis, da atuação rigorosa e cética da auditoria e da efetividade dos sistemas de supervisão. Quando há falhas técnicas, interpretações frágeis ou complacência com o erro, o impacto se espalha por todo o ecossistema.

A contabilidade é a linguagem central da confiança pública. É por meio dela que riscos são mensurados, decisões são fundamentadas e responsabilidades são atribuídas. Quando essa linguagem é distorcida, relativizada ou mal interpretada, o problema ultrapassa o limite de um balanço individual e afeta a credibilidade do sistema como um todo. Proteger a contabilidade é proteger o interesse público.
O Brasil construiu, nas últimas décadas, um arcabouço contábil moderno e alinhado aos padrões internacionais, integrando seu mercado de capitais ao ambiente global. Esse avanço representa uma conquista institucional relevante, mas impõe uma exigência clara: normas mais sofisticadas alinhadas com o aumento da complexidade de negócios, incorporação de tecnologia e inteligência artificial, demandam rigor técnico, preparo profissional e responsabilidade institucional na sua aplicação, interpretação e fiscalização. Em temas que envolvem confiança pública, não se deve postergar decisões ou relativizar responsabilidades, isto tem um preço elevado.
Nesse contexto, a auditoria independente assume um papel estratégico na preservação da confiança do mercado. Deve ser compreendida como um instrumento de fortalecimento institucional, e não como um fator de instabilidade. Identificar falhas, apontar inconsistências, revisar modelos e exigir correções não fragiliza o sistema; ao contrário, sustenta e reforça sua credibilidade. O enfrentamento responsável dos erros, quando conduzido com rigor técnico, ética e independência, valoriza a auditoria e contribui para a elevação contínua dos padrões da profissão.
Instituições financeiras, companhias abertas e agentes de mercado se beneficiam de ambientes regulatórios previsíveis, decisões baseadas em fundamentos contábeis sólidos e fiscalização qualificada. Esse conjunto reduz riscos sistêmicos, amplia a segurança jurídica e fortalece a confiança de investidores nacionais e internacionais. E, este é o papel das instituições regulatórias e fiscalizadoras.
A pluralidade de formações nestes órgãos é positiva e necessária. Contadores, economistas, juristas, administradores e outros profissionais, quando atuam de forma integrada, contribuem com visões complementares. Ainda assim, grande parte dos riscos que afetam o sistema financeiro e o mercado de capitais tem origem em questões de natureza contábil, como classificações inadequadas, avaliações inconsistentes, falhas de divulgação ou interpretações excessivamente permissivas das normas. Por essa razão, a presença qualificada de profissionais com sólida formação contábil e experiência prática representa um ativo institucional, inclusive no debate sobre a composição dos órgãos reguladores, como a CVM.
Enfrentar o erro e transformar sua ocorrência em oportunidade de melhoria contínua, com seriedade e responsabilidade, não significa atacar a profissão contábil; significa fortalecê-la. Esse é, precisamente, o papel do Conselho Federal de Contabilidade e dos Conselhos Regionais de Contabilidade. A credibilidade da contabilidade brasileira foi construída ao longo de décadas a partir da disposição permanente de evoluir, corrigir rumos e aprimorar práticas. O silêncio diante de falhas não protege ninguém. A atuação técnica, ética e responsável, ao contrário, protege a sociedade, o mercado e o próprio profissional.
Os alertas que o mercado insiste em nos dar, portanto, devem ser compreendidos como oportunidades de amadurecimento institucional. A confiança pública se constrói com sistemas robustos, fiscalização efetiva, profissionais qualificados e uma cultura clara de responsabilidade técnica. Em um cenário de crescente complexidade econômica, inovação financeira e transformação digital, investir na qualidade da contabilidade, da auditoria e da fiscalização é investir na estabilidade do mercado e na credibilidade do país. A contabilidade atua nos bastidores, mas sustenta um dos pilares mais sólidos da confiança pública. Proteger esse pilar é um dever institucional permanente.
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Fonte: CFC
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