
O sistema tributário brasileiro atravessa sua mais profunda transformação estrutural com a implementação da Reforma Tributária do Consumo.
Nesse cenário, o princípio da legalidade tributária — base que estabelece que nenhum tributo pode ser criado ou majorado sem previsão em lei — ganha contornos de complexidade inéditos.
Para o segmento das microempresas, a observância estrita desse preceito deixa de ser apenas uma garantia jurídica para se tornar um desafio de gestão contábil e operacional.
Legalidade como garantia e limite
Consagrado pela Constituição Federal, o princípio da legalidade atua como um freio ao poder impositivo do Estado, assegurando que o fisco não exija prestações pecuniárias por meio de atos administrativos isolados, como portarias ou decretos.
No contexto da Reforma, essa proteção permanece integral: a criação da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), bem como a extinção gradual do PIS, Cofins, ICMS e ISS, seguem rigorosamente o rito legislativo, dependendo de Leis Complementares para sua regulamentação.
No entanto, para o contribuinte de pequeno porte, a legalidade não implica simplicidade. A fragmentação das regras em múltiplos textos legais e a delegação de detalhes técnicos a normas infralegais exigem um monitoramento constante do arcabouço normativo para evitar o descumprimento involuntário de novas obrigações.
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Complexidade na transição normativa
O maior desafio à aplicação prática da legalidade reside no período de transição. Durante este intervalo, coexistirão regras do sistema antigo e do novo modelo, demandando das microempresas uma “dupla conformidade”.
A convivência de tributos de bases distintas (origem x destino) e regimes de crédito diferenciados aumenta exponencialmente a probabilidade de erros na apuração. Embora as cobranças possuam fundamento legal, a execução operacional — que inclui a parametrização de sistemas e a correta classificação de mercadorias — torna-se o ponto de maior vulnerabilidade para as empresas.
Impactos na gestão contábil
A análise técnica indica que a legalidade normativa, por si só, não mitiga os riscos operacionais. Especialistas apontam que a conformidade dependerá de três pilares fundamentais para a microempresa:
- Atualização de Cadastros: A adequação à Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) e aos novos códigos de situação tributária é essencial para a validade dos documentos fiscais.
- Tecnologia como Suporte: A utilização de sistemas de gestão (ERP) integrados torna-se indispensável para processar o volume de alterações sem a incidência de erros manuais.
- Consultoria Estratégica: O papel do contador evolui de um executor de guias para um intérprete da norma, traduzindo o dinamismo legislativo em rotinas seguras para o empresário.
Conclusão
Em suma, a Reforma Tributária não afasta a legalidade, mas altera a forma como ela é consumida pelas organizações. A previsibilidade, objetivo central do princípio, agora depende da capacidade da microempresa em se estruturar internamente.
A omissão ou a desatualização perante as novas leis complementares pode resultar em autuações que, embora legalmente fundamentadas, seriam evitáveis com uma governança contábil eficiente.
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