No coração da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, o turismo deixou de ser apenas a visita a cachoeiras de águas cristalinas para se tornar uma estratégia de desenvolvimento, permanência no território e valorização da identidade quilombola. Na Comunidade Kalunga do Engenho II, em Cavalcante, o turismo de base comunitária movimentou quase R$ 12 milhões em impacto econômico direto nos anos de 2022 e 2023 e atraiu mais de 70 mil visitantes nos últimos três anos, segundo estudo realizado pelo Sebrae Goiás em parceria com a comunidade.

O modelo tem como principal característica o protagonismo dos moradores na gestão da atividade turística. São eles que definem as regras de visitação, organizam os serviços, conduzem os visitantes, oferecem alimentação, hospedagem, transporte e experiências culturais. Para Ana Clévia Guerreiro, coordenadora de Comércio, Serviços e Economias de Futuro do Sebrae Nacional, esse é justamente o diferencial do turismo de base comunitária.

Ele se caracteriza pelo protagonismo das pessoas daquele local, daquele destino, daquele território. O visitante se conecta com aquilo que é mais autêntico, com a história, os desafios e as conquistas daquela comunidade.

Ana Clévia Guerreiro, coordenadora de Comércio, Serviços e Economias de Futuro do Sebrae Nacional

A atuação do Sebrae Goiás junto ao território Kalunga começou em 2002, com a Cavalgada Científica Kalunga, uma das primeiras iniciativas técnicas voltadas ao desenvolvimento do turismo em cooperação com os moradores. Desde então, a parceria passou por diferentes fases, incluindo o Projeto Vila Kalunga, cursos de condutores de visitantes, ações de fortalecimento da agricultura familiar, estudos de branding e, mais recentemente, o trabalho da Rede de Agentes de Roteiros Turísticos, iniciado em 2022.

De acordo com Priscila Vilarinho, gestora estadual de Turismo do Sebrae Goiás, o novo ciclo de atuação foi estruturado em quatro pilares: gestão colaborativa do turismo, ordenamento da atividade no território, qualificação das experiências e produtos turísticos, além de promoção e apoio à comercialização. “Todas as iniciativas foram executadas de forma colaborativa, respeitando a identidade, o tempo social da comunidade, seu protagonismo e seu processo de empoderamento”, destaca.

Foto: Divulgação

Renda que fica no território

O impacto econômico do turismo alcança diferentes elos da comunidade. Entre 2022 e 2023, a atividade gerou R$ 5 milhões em receita para a Associação Kalunga Comunitária do Engenho II (AKCE), R$ 3,5 milhões para guias e condutores, R$ 1,8 milhão para transportadores e R$ 1,5 milhão para restaurantes. O dinheiro movimenta uma cadeia que envolve agricultura familiar, artesanato, hospedagem, alimentação, transporte, condução de visitantes e serviços de apoio.

O protagonismo feminino também se destaca. Segundo o estudo, 100% dos restaurantes e 75% dos meios de hospedagem são administrados por mulheres, que também representam 42% dos condutores de visitantes. A maior parte da produção artesanal também é realizada por mulheres, que encontraram no turismo uma oportunidade de renda sem sair da comunidade.

Para Dominga Natália Moreira dos Santos, liderança da Comunidade Kalunga do Engenho II, professora, condutora de visitantes e empreendedora no ramo de hospedagem, o turismo abriu caminhos para mulheres e jovens. Ela conta que fez sua primeira condução ainda criança, movida pela curiosidade de participar de uma atividade que, na época, era mais associada aos homens.

Minha primeira fonte de renda foi como condutora de visitantes. Fiz o curso com apoio do Sebrae e, a partir daí, comecei minha trajetória no turismo.

Dominga Natália Moreira dos Santos, liderança da Comunidade Kalunga do Engenho II

Gestão coletiva

A gestão do turismo é feita pela associação comunitária, com decisões tomadas em assembleia. Depois do pagamento de funcionários, custos operacionais e manutenção da atividade, parte dos recursos é destinada a investimentos definidos pela própria comunidade. Entre os benefícios já realizados estão melhoria de estradas, compra de veículos e máquinas, instalação de internet, rede de água, apoio a eventos culturais, estruturação de atrativos, cursos, equipamentos comunitários, ações de saúde e fortalecimento da gestão territorial.

A AKCE também mantém trabalhadores com carteira assinada em áreas como reserva, recepção, administração, loja, limpeza e manutenção. Para Priscila Vilarinho, esse é um dos grandes aprendizados do caso Kalunga: o turismo só se sustenta quando a comunidade domina a operação e lidera os benefícios. “O sucesso do turismo de base comunitária está diretamente ligado ao respeito ao tempo da comunidade. O planejamento técnico precisa caminhar junto com os processos de empoderamento e legitimidade local”, afirma.

Foto: Divulgação

Cultura como experiência

Embora a Cachoeira Santa Bárbara seja um dos principais atrativos da região, a comunidade tem buscado ampliar a experiência dos visitantes para além das belezas naturais. Rodas de conversa, gastronomia quilombola, histórias dos anciãos, artesanato, agricultura familiar, festas tradicionais e narrativas sobre a luta pelo território passaram a integrar a proposta turística.

Para Ana Clévia, essa é uma das maiores contribuições do turismo de base comunitária para a valorização da brasilidade. “Quanto mais singular e genuíno é um território, mais ele desperta interesse. É essa identidade, construída ao longo de décadas ou séculos, que faz com que as pessoas queiram conhecer aquele lugar”, ressalta.

O reconhecimento nacional veio em 2023, quando a AKCE recebeu o Prêmio Nacional do Turismo, do Ministério do Turismo, como melhor iniciativa de Turismo de Base Comunitária do Brasil. Para Dominga Natália, a conquista confirmou um caminho construído coletivamente. “Foi um reconhecimento gigantesco para a gente. Mostrou que estamos andando em um bom caminho e que a comunidade sente de perto a importância desse trabalho”, afirma.

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Fonte: Sebrae
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